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MISSIONÁRIAS DE ONTEM E HOJE

Vivienne Stacey


Vivienne nasceu no dia 12 de julho, 1928, em Greenford, um subúrbio de Londres. Sua mãe foi criada em ambiente presbiteriano, mas depois reagiu, abandonando a igreja. De modo semelhante, o seu pai, da igreja anglicana, não era praticante. Assim, Vivienne e seu irmão mais novo não foram criados em igreja alguma. Felizmente, seus pais aceitaram a Cristo mais tarde, creio que na missão de Billy Graham, em Londres.


Com quinze anos, ela passou a estudar no mesmo colégio que eu frequentava. Também usávamos o mesmo ônibus para ali chegar. Juntas, estudávamos a literatura inglesa. Ficamos apaixonadas por Shakespeare. Como parte da prova final incluía várias peças daquele poeta, Vivienne e eu íamos cedo, de bicicleta, até Stratford, para comprar entradas baratas para nós e para os colegas de turma. Numa dessas ocasiões, quando assistimos Antônio e Cleóplatra naquele teatro, voltávamos de tarde, como sempre de bicicleta. Ora, era tempo de guerra, era difícil encontrar pneus novos, e tivemos de parar várias vezes para consertar pneus furados. Assim, só chegamos à cidade de Banbury, na qual íamos dormir por ser onde Vivienne morava, nas primeiras horas da madrugada. Qual não foi a nossa surpresa de achar todo mundo na rua, fazendo festa com mesas de bolo e refrigerantes. Todas as luzes acesas nas janelas abertas (não era permitido sair sequer uma pequena fresta de luz, pois os aviões inimigos podiam assim localizar a cidade e soltar suas bombas); e os sinos das igrejas tocando alto. Era 12 de maio de 1945, e a guerra na Europa acabara!


Em 1945, ambas passamos a fazer faculdade na universidade de Londres, mas em escolas diferentes. Continuávamos nos encontrando. Passamos horas discutindo o como e o porquê dos horrores de guerra, e como isto se relacionava com a realidade de Deus - se é que Ele existia!


Em fevereiro de 1946, na sala de estar da sua faculdade, uma colega lhe fez uma pergunta: “Você está salva?” Na Inglaterra da época, não se fazia perguntas assim! O choque foi tão grande que Vivienne passou a refletir sobre Deus. Esta amiga a convidou para uma reunião de oração da União Cristã (o que corresponde à Aliança Bíblica Universitária do Brasil - ABU). Ela foi, não para orar, mas para observar.


Depois, a amiga a convidou para ir a uma reunião no Albert Hall (um dos maiores auditórios de Londres) onde pregaria Martyn Lloyd Jones, grande expositor das Escrituras. Fui com ela e ficamos bem impressionadas. Dr. Lloyd Jones pregou sobre a ressurreição da filha de Jairo. O outro pregador falou da ressurreição do próprio Jesus. Dois dias depois, Vivienne estava sozinha no escritório do pai, à noite. Desligou a luz e se ajoelhou. Ela mesma registrou o que aconteceu depois. “Havia luz na sala, e Jesus estava de pé, na minha frente. Soube que ele morrera pelos meus pecados. Sua paz me encheu o coração. Este encontro mudou o rumo da minha vida toda.”


Logo ela buscava a vontade de Deus para a sua vida. Qual a carreira que devia seguir? E onde devia trabalhar? A convicção de que deveria se tornar professora para ser missionária entre os muçulmanos cresceu. Fez curso de professora, e ensinou num colégio na Inglaterra por algum tempo. Então entrou em contato com a missão hoje conhecida como Interserve, e foi para United Bible Training Centre, em Gujranwala no norte do Paquistão. Esta escola treinava mulheres paquistanesas para testemunhar a muçulmanos. Por vinte anos, de 1955 até 1975, trabalhou ali, primeiro como professora e depois como diretora.


Deus lhe dera esta vocação, mas também lhe deu uma visão maior que abrangia o ministério aos muçulmanos em outras partes do mundo. A indústria do petróleo atraía gente do Paquistão, Índia e Nepal para trabalhar nos países do Golfo. Vivienne treinava mulheres profissionais cristãs deste grupo, na Bíblia, e no evangelismo, para que pudessem ser missionárias nesses países árabes. Também visitava a região pessoalmente, animando estas e outros profissionais cristãos do ocidente a testemunharem ali. Como resultado disso, foi convidada a participar do ministério estudantil, a IFES (Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos, da qual a ABUB – Aliança Bíblica Universitária do Brasil, também faz parte). No decorrer deste ministério, teve um culto cristão muito abençoado até na Arábia Saudita; e, ainda, um grupo de universitários em Dubai foi formado em 2007.


Ensinava como evangelizar muçulmanos: “Tem que ser em diálogo, sem desprezar Maomé e o Alcorão”. Uma vez estava viajando sozinha de ônibus nas áreas tribais entre Paquistão e Afeganistão, com uma sacola cheia de Novos Testamentos e trechos bíblicos no colo. Um fazendeiro ao seu lado ficou muito curioso. Ele também tinha uma sacola que levava para casa. Perguntou: “O que a senhora está levando?” E ela disse: “O que o senhor tem naquele saco?”. “Sementes para plantar” - ele respondeu. “Eu também tenho sementes” - ela disse - “Sementes da Palavra de Deus”. O diálogo continuou, com os demais passageiros prestando muita atenção. “Mas o cristianismo é uma religião ocidental. Não queremos uma coisa imposta pelos ocidentais”. Vivienne lhe disse com muita clareza: “Jesus não foi ocidental. Ele nasceu no oriente médio, e tem muito a ver com a cultura de vocês.” Antes do fim da viagem, todos os passageiros ouviram o Evangelho, e muitos levaram porções bíblicas para casa.


Vivienne encontrou muitos casos de possessão demoníaca nos povos muçulmanos. Achou necessário escrever sobre isso, para o cristão entender a realidade da ação diabólica hoje e como libertar e discipular os que fossem libertos. Escreveu então “Christ, supreme over Satan” (Cristo, supremo sobre Satanás, em tradução livre), publicado em urdu, em 1984, e no inglês, em 1986. (Uma vez comentou comigo que muito preferia escrever em urdu, para que fossem ajudados seus amigos no Paquistão).


Talvez uma das suas maiores contribuições para a obra missionária de hoje tenha sido o apoio que sempre dava a outros obreiros. Ajudava de modo especial às missionárias. Animava, aconselhava, e até as ajudava a escrever livros. Seu livro Mission Ventured, relata as experiências de mulheres de cinco continentes com as quais ela teve comunhão. Estas obreiras incluíam Ada Lum, filha de imigrantes chineses nos Estados Unidos, e Antônia van der Meer (Tonica), brasileira cujos pais eram imigrantes da Holanda. Ela aproveitou a visita ao Brasil para ir até o Centro Evangélico de Missões, em Viçosa – MG, a convite de Tonica, para entrevistá-la e colher mais detalhes sobre a sua atuação em Angola, que puderam ser usados nesse livro. Nessa época, já era diabética, o que exigia cuidados especiais, mas nem por isso ela deixou de viajar o mundo ensinando e pedindo oração pela missão com os muçulmanos.


Vivienne faleceu em 2010. Sua contribuição para o ensino e o evangelismo, especialmente de muçulmanos, foi imensa. As estratégias que desenvolveu para a obra missionária moderna foram valiosíssimas. Acima de tudo, foi precioso seu jeito de animar e ajudar os outros a servirem o nosso Jesus maravilhoso.


(in memoriam) Dª BETTY BACON

Escritora e Missionária

Revista Diadema Real - Ano XXII Set-Dez/2011 Nº71

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